domingo, 27 de março de 2011

Leitura obrigatória para o vestibular 2012 da Fuvest e Unicamp

       Leitura obrigatória para o vestibular 2012 da Fuvest e  Lista 2011 de livros obrigatórios  é a mesma para vestibular 2012.                                     

          A  Fuvest e a Comvest, que organizam os vestibulares da USP e da Unicamp, vão manter a lista de livros obrigatórios para os vestibulares com ingresso em 2012.
          A lista é a mesma de 2010 para que o estudante do ensino médio possa ter mais tempo para se preparar. Segundo o manual do candidato do  último vestibular,   o vestibulando  deve demonstrar "conhecimento das obras representativas dos diferentes períodos das literaturas brasileira e portuguesa. O conhecimento desse repertório implica a capacidade de analisar e interpretar os textos, reconhecendo seus diferentes gêneros e modalidades, bem como seus elementos de composição, tanto aqueles próprios da prosa quanto os da poesia. Implica também a capacidade de relacionar os textos com o conjunto da obra em que se insere, com outros textos e com seus contexto histórico e cultural."

         Veja quais são os livros do vestibular 2012:


             *Auto da Barca do Inferno - Gil  Vicente

             *Memórias de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida  

             * Iracema - José de Alencar

            *Dom Casmurro - Machado de Assis

            *O Cortiço - Aluísio Azevedo

            *A Cidade e as Serras - Eça de Queirós

           *Vidas Secas - Graciliano Ramos

          *Capitães da Areia - Jorge Amado

          *Antologia Poética (com base na 2ª ed. aumentada) - Vinícius de Moraes 


             Vamos começar a estudá-las? 


                                        O Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente

           É a primeira peça ( e a mais interessante) da Trilogia das Barcas e classifica-se como auto da moralidade . Gil Vicente coloca no palco a  sociedade de seu tempo, que é a espectadora ela própria da representação, que vale como uma advertência e uma lição, indicando os pecados que a afastam da salvação.
           A peça tem como cenário dois batéis colocados, em oposição, à margem da ribeira que separa o reino dos vivos do reino dos mortos. Por essas duas barcas desfilam pecadores mortos, ou suas almas, revestidas das mesmas carcterísticas, vestimentas, instrumentos e objetos associados à posição social e aos pecados de cada um.
         É uma alegoria do Juízo Final, com o Diabo e o Anjo conduzindo as pessoas à vida eterna, a partir do julgamento de suas virtudes e defeitos.
         As personagens do Auto da Barca do Inferno são, por ordem de entrada:
 - Anjo capitão da barca do Céu, é ele quem elogia a morte pela fé; é austero e inflexível.
 - Diabo o capitão da barca do Inferno, é quem apressa o embarque dos condenados; é dissimulado e irônico.
 - Fidalgo: membro da nobreza, arrogante e presunçoso, é a personificação da própria plateia que assistia à encenação dos autos e farsa  de Gil Vicente.
 - Onzeneiro: é um agiota, um usurário, de quem o Diabo diz ser parente. Idolatra o dinheiro e de tudo que juntou, nada levou para a  morte, ou melhor, levou a bolsa vazia. A usura e a ganância eram pecados mortais intoleráveis, revelando a defesa da posição da Igreja Medieval, contrária à especulação e à idolatria ao dinheiro.
 - Joane, o Parvo: é um bobo, um tolo, um ignorante, incapaz de compreender, mas consciente de sua condição de excluído socialmente, humilde, rude, franco e sem malícia.  Sua absolvição decorre do princípio cr
istão de que "bem aventurados são os pobres de espírito, porque deles é o reino do céu".
 - Sapateiro:  é um artesão desonesto e um falso beato; é a personificação da má-fé no exercício da profissão e prática de uma religiosidade apenas formal, destituída do sentido autenticamente cristão.
 - Frade: libertino, mais cortesão do que religioso, amante de Dona Florença e exímio espadachim; é subjugado por suas fraquezas: mulher e esporte. Leva a amante e as armas de esgrima ao morrer. Representa o clero decadente e a condenação do falso moralismo religioso, confirmando a máxima de que o hábito não faz o monge.
 - Florença: amante do padre.
 - Brígida Vaz:  a alcoviteira, a cafetina e feiticeira. A prostituição e a feitiçaria são as práticas pelas quais a personagem é condenada  à barca do Inferno.
 - Judeu: é aparentemente tão execrado que nem o Diabo o quer em sua embarcação, especialmente porque chega acompanhado do bode, símbolo de sua religião e do qual não quer se separar. A rigor, seu único "pecado" é o de não ser cristão. É importante observar que Gil Vicente, cuja tolerância religiosa tem sido enfatizada pelos biógrafos, parece ter adotado uma solução ambígua quanto à condenação do personagem, uma vez que o registra o preconceito quinhentista contra os judeus, porém omite um juízo pessoal ou comprometedor sobre o tema.
 - Corregedor: magistrado, juiz de direito; é arbitrário e representa aqueles que se valem da autoridade de seus cargos para enriquecerem de forma ilícita.
 - Procurador:  advogado do Estado.
 - Enforcado: sua condenação recoloca em cena a crítica à burocracia  corrupta.
 - Os quatro cavaleiros: representam a glorificação do ideal das Cruzadas e do cristianismo puro.


       A caricatura dos tipos sociais apresentados no  Auto da Barca do Inferno  não é gratuita nem artificial, mas é o resultado da acentuação de traços típicos. Gil Vicente visa, não às instituições, mas aos indivíduos que as corrompem. O que pretendia era resgatar instituições nas quais acreditava: a Igreja e a Nobreza; o que ele queria era salvá-las do dinheiro  e das ambições mundanas.
    Quanto à estrutura, observa-se uma descontinuidade das cenas que se superpõem, sem encadeamento cronológico ou sem um enredo articulado, com começo, meio e fim, no entanto  é totalmente coerente com o caráter  didático do auto  porque facilita o distanciamento do espectador.
    Em o Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente manifesta uma visão medieval do mundo em transformação para o Renascimento porque condena de forma  explícita a preocupação com a riqueza material, com a ostentação e com a vaidade, demonstrando uma concepção mística do homem como ser dotado de uma vida espiritual que transcende a materialidade da carne, como um ser dotado de uma "alma", que necessitava se salvar das tentações do mundo que começava a emergir da Revolução Comercial, do mercantilismo e do nascente capitalismo.


    Lembrando:

   Auto  é uma designação genérica para  textos poéticos ( normalmente em redondilhas) criados para representações teatrais no final da Idade Média. A maioria dos autos apresenta caráter predominantemente religioso, embora a obra de Gil Vicente nos ofereça vários exemplos de temática profana  e satírica (as farsas), sempre com preocupações moralizantes.


   Bom estudo!